A trama do cartum, consciência e sociedade: Henfil, Freire e Morin.
- Luigi Pedone

- 25 de mar.
- 3 min de leitura

O Encontro das Águas Agitadas.
Abrir as páginas deste estudo é aceitar um convite ao desconforto produtivo. Não se trata de uma análise isolada de três figuras históricas, mas sim do mapeamento de um ecossistema de resistência. Aqui, a urgência visual dos cartuns de Henfil, a profundidade ética da pedagogia de Paulo Freire e a amplitude sistêmica do pensamento complexo de Edgar Morin se encontram como rios que desembocam no mesmo mar: o da emancipação humana.
Vivemos em uma era de fragmentação, onde a imagem é rápida e o pensamento é raso. Resgatar a mordacidade do Pasquim sob as lentes da complexidade e da libertação é mais do que um exercício acadêmico; é um ato de alfabetização política. A hipótese que se pretende afirmar no desenvolvimento desse projeto é a ideia de que o traço de um desenho pode ser tão pedagógico quanto um livro, e que a teoria só se torna viva quando se permite rir e indignar-se diante das contradições do mundo.
Neste contexto tem-se como um dos pontos de partida a vivência em uma ação pedagógica complexa realizada no ano de 2025 em Brasília, e posteriormente em outros estados da nação. Trata-se do projeto ‘Dialogando’ que promoveu processos formativos de educação em saúde nas escolas, usando o traço do cartum, não somente como meio documental, mas como meio de transformação social. O trabalho dos cartunistas junto ao corpo escolar gerou uma nova forma de educar e pensar a arte dos cartuns no meio educacional, saindo dos espaços não formais de ensino, como aqueles realizados em espaços de culturais e museus.
O então projeto Dialogando constituiu-se em um catalisador para investigação ora proposta. pudesse ocorrer com sucesso, de modo que a cientificação ficou a encargo dos estudos dos autores objetos do artigo, que apresenta e investiga a prática ocorrida com o intuito de validar as formativas expressas aqui.
O Traço como Práxis: A Biografia da Indignação
A interseção entre a arte de Henfil (Henrique de Souza Filho), a pedagogia de Paulo Freire e o pensamento complexo de Edgar Morin não se dá por acaso, mas por uma urgência histórica. Enquanto Henfil, no epicentro d’O Pasquim, utilizava o nanquim como arma de descolonização das mentes, ele operava — ainda que intuitivamente — dentro da lógica da conscientização freireana e da reforma do pensamento proposta por Morin.
Henfil: O Desenho como Leitura do Mundo
Para Paulo Freire, "a leitura do mundo precede a leitura da palavra". Henfil levou essa premissa ao limite gráfico. Através de personagens como a Graúna e o Bode Orelana, ele não apenas ilustrava a pobreza; ele a decodificava.
Ao retratar o sertão e a ditadura, Henfil promovia o que Freire chamava de educação problematizadora. Cada quadrinho era um tema gerador que forçava o leitor a sair da passividade da educação bancária (onde apenas se recebe informação) para se tornar um sujeito crítico. O riso provocado pelo editorial Pasquim não era anestésico, mas sim um despertar ético.
A Complexidade de Morin no Nanquim de Henfil
Edgar Morin argumenta que o conhecimento fragmentado é cego. Ele propõe um pensamento que une o biológico, o social e o político. O trabalho de Henfil é uma manifestação visual dessa complexidade.
Nas páginas do Pasquim, um cartum sobre a fome estava intrinsecamente ligado à crítica do modelo econômico e à solidariedade humana. Henfil praticava a transdisciplinaridade: ele unia o humor, a sociologia e a arte para combater a inteligência cega que Morin tanto critica. Ele entendia que o Brasil não era um problema simples, mas um sistema complexo de opressões entrelaçadas.
Bibliografia de Referência
* FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
* MORIN, Edgar. A Cabeça Bem Feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
* HENFIL. Diretas Já! (Coletânea de cartuns e editoriais do Pasquim).
* KOTSCHO, Ricardo. Henfil: o rebelde do traço. São Paulo: Record.



Comentários