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Racialização e colonização nas ilustrações para editoriais, e seu reflexo no ensino do cartum.

Atualizado: 23 de out. de 2023


As imagens em editoriais são uma ferramenta poderosa de comunicação e podem ser atribuídas a elas as melhores formas de transmiti-las, em harmonia com pensadores como Stuart Hall e o educador Fernando Hernández, para formar uma base de pensamento em que processos criativos em comunicação tenham mais inclusão em suas visualidades, e comungue com as práticas na educação através das pedagogias culturais.

Neste ensaio vou trazer uma perspectiva histórica dos processos que formaram a identidade cultural da era moderna, formando um cruel processo de apagamento dos corpos e mentes dos negros e povos originários nos últimos dois séculos. Fazendo uma análise pedagógica dos reflexos sociais nos cartuns, charges e histórias em quadrinhos publicados na indústria da mídia de massa. Usando como fonte de pesquisa, as aulas ministradas durante os anos de 2022 e 2023 na “oficina de ilustração para editoriais”, oferecida de forma gratuita, pública e participativa, como a diretriz histórica do Espaço cultural Renato Russo na 508 sul determina.

O apagamento dos corpos e mentes se remedia com os processos das pedagogias culturais, e na educação visual dos artistas que estão sempre ligados as suas contemporaneidades. É nos espaços culturais que podemos refletir sobre estes processos, pois vemos em cada um dos participantes sua perspectiva e posição política e crítica, quando se deparam com o despertar que a arte participativa promove.

Hall identifica em seu texto “racializando o outro” que processo racista nas imagens tem início na difusão de signos na história dês que Gutemberg popularizou a prensa no século XV, e quando começa o processo de escravização dos africanos por parte dos europeus, para abastecer as colônia já muito degradadas. Posso analisar através de uma memória descritiva sobre a face política das ilustrações em editoriais, e em que forma isso impacta na criação do pensamento crítico, ferramenta tão importante na formação de novos ilustradores para mídias diversas que se apresentam no século XXI.


O momento inicial identificado no processo de racialização está atrelado a colonização da África no século XVI, e vem em conjunto ao paradigma de que tipo imagético é permitido em sociedades colonizadas, e até onde esse fato se atrela a arte produzida dos alunos na pesquisa de arte-educação. Como cartunista e professor, acho comum o processo de vigilância nas ilustrações criadas em minhas turmas, mas sei que não é assim nos editoriais que eventualmente eles lerão, pois, a arte é imbuída de significado. A produção de editoriais ilustrados se deu no Brasil em um contexto único, de criação não somente das nações latinas, mas em um forte movimento de pensar a identidade cultural, ou seja, pensar no que seria um latino-americano ou brasileiro.



Em 1837, foi criado por Manoel Araújo Porto Alegre ainda em terras farroupilhas, o primeiro editorial ilustrado do Brasil. Tendo em vista a breve existência da república de Bento Gonsalves e Garibaldi, o editorial era uma crítica ao império, e principalmente o partido liberal, que abrigava grande parte dos proprietários de escravos. Embora os trabalhos do pioneiro português tenham uma grande importância histórica e artística, os olhos atentos da história nos reservaram outro artista vindo das fazendas na antiga Curitiba.

Falo de João Pedro, ou simplesmente o “mulato”, um artista negro apagado pela história, talvez ele seja o primeiro cartunista a exercer a arte na América portuguesa, era uma arte carregada de significações e humor.

É em 1970 que são identificadas as primeiras ilustrações deste artista, provavelmente um autodidata que ilustrava com um humor típico dos desenhos que faziam sucesso na Europa. Por isso as obras foram encontradas em livrarias e antiquários de Lisboa pelo historiador Newton Carneiro. (Magno.p34)

Fato é que as imagens muito bem ilustradas nos mostra de forma caricata o sistema colonial, principalmente as mazelas na vida e no dia a dia, onde fica evidenciado o processo de racialização, mas também os maus tratos as mulheres indígenas e negras, que remete a imagem da mulher como ser subserviente e hiper sexualizado.

Ponto que sempre é discutido nas aulas, os próprios participantes vêm com suas vivências e através dos cartuns e charges, eles se educam politicamente e visualmente. Assim eles alcançam a interdisciplinaridade para entender o mundo e principalmente as formas que ideologicamente ele é transmitido.

É neste momento que a disciplina da história participa das aulas de artes para gerar o pensamento crítico, e atender as pedagogias culturais, que se apresentam como fio condutor que conecta momentos, decisões e histórias. (Hernández, p.329)

As lâminas pintadas em aquarela foram criadas entre os anos de 1807 e 1817, em um momento de intensas mudanças políticas no país, as ilustrações são cômicas, sátiras do regimento de guarda, um registro de como a américa latina se desenvolveu no século XIX, o século em que pensadores como Simón Rodrigues tiveram protagonismo, pensando em uma educação libertadora e utópica para uma américa plural.

Esse modo educacional é vivenciado pelos participantes da oficina, realizando uma pedagogia do evento, que marca o objeto artístico e aciona o ato político no fazer artístico, essa ação fica evidenciada quando se apresenta obras como Tim Tim no Congo (ou África, depende da versão), que traz uma visão submissa dos povos africanos colonizados pelos belgas como o criador Hergé.

Outro trabalhos são exemplificados em nossos encontros e os debates têm sido produtivos, gerando uma harmonia necessária para a prática saudável da arte visual libertária exercida nos espaços não formais de ensino.

Os processos históricos vêm sendo representados nas ilustrações para editoriais com uma constância enorme, e sempre é uma posição comercial, política ou mesmo de apropriação dos espaços sociais. São obras direcionadas, elas têm um alvo certo.

Rescrever ou redesenhar, é uma das atividades mais difundidas na profissão de cartunista, não podemos esquecer como foram importantes as imagens dos cartazes gerados durante as grandes guerras, distanciando e invalidando a humanidade do outro. Essa linguagem também é usada de forma lúdica diluída em quadrinhos que aparentemente são inocentes, mas que na verdade reforçam os estereótipos negativos, fortalecendo o racismo e nacionalismo extremista.

Na oficina os participantes têm contato com todo este conteúdo interdisciplinar, e principalmente inclusivo e representativo nas suas pedagogias culturais, dando espaço para que as aulas de artes se tornem algo mais significante do que somente interpretar notícias com o traço típico do humor. São construídos cidadãos imbuídos de arte e ferramentas para combater a desinformação e o racismo sistemicamente estrutural. E as produções em quadrinhos são uma forte representação deste tipo de ferramenta.

As dinâmicas de ensino têm uma forte relação com a criação do Espaço Cultural Renato Russo na 508 sul, quando foi criado em movimentos artísticos de ocupação política, onde a forma de agir era bem aos moldes da contracultura.

Dando a oportunidade de várias pessoas de cultura e pensamentos diferentes possam desenvolver-se como artistas visuais preparados para atender as demandas de uma sociedade cada vez mais inclusiva e representativa, sabendo que corpos negros latinos são cada vez mais uma força nos meios acadêmicos e artísticos. Se tornando os produtores de uma mídia ilustrada alinhada aos preceitos da cultura do século XXI.

Validando as pedagogias culturais e a formação de uma identidade com representatividade que busca mais espaço para que a arte cientificada possa ser o veículo da inclusão social esperada vinda pelo caminho da educação multicultural, respeitando e legitimando o indivíduo ilustrador como o ser incumbido de mostrar o mundo ao mundo.






Bibliografia:


· Hall, Stuart - Identidade cultura na pós-modernidade, 2014.

· Hernández, Fernando – Pedagogias Culturais: o processo de se construir em um campo que vincula, conhecimento, indagação e ativismo.

· Magno, Luciano – História da caricatura no Brasil, Ed. Gala. 2016

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