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A evolução do humor gráfico do Brasil no século XIX.


Ocorreram inúmeras manifestações ligadas ao desenvolvimento da imprensa ao redor do mundo, mas certamente nenhuma foi tão significativa como o desenho de humor, ou simplesmente Cartum, que significa mensagem gráfica, palavra derivada do inglês. Nada poderia ser tão oportuno na imprensa do século XIX, por se tratar de um século de constantes revoluções.  

   Os folhetins ilustrados no Brasil comemçaram a circular precocemente em 1837, eles circularam semanalmente sempre satirizando personalidades.

Essa cultura editorial se tornou popular no mundo ainda no século XVIII, com as publicações do francês Honoré Daumier, essa tradição da Europa se traduz nos primeiros exemplares brasileiros do século XIX.  

Foram os imigrantes europeus que deram a partida nesse sensacional modo de trabalho no humor e do traço artístico, em uma sociedade marcada pelas revoluções políticas e sociais do período Regencial. Essa arte ganha destaque dentro da imprensa, pois o fator humorístico cativava os poucos leitores do país e também a população não letrada. 

   O primeiro editor e artista foi o português Manuel de Araújo Porto Alegre, ele é o pioneiro no humor brasileiro, seu folhetim de 1837 intitulado "A  Companhia e Cujo" trazia em  seu primeiro exemplar uma caricatura do alto funcionário público, Justiniano José da Rocha, praticando um ato de corrupção junto ao correio oficial do Rio de Janeiro. 

Esse primeiro editorial, assim como os posteriores eram produzidos com baixa tiragem e de modo quase artesanal, e com uma distribuição muito restrita. Anos mais tarde com o fim do período de Regência e a consolidação do sistema imperial, o próprio Manuel de Araújo Porto Alegre lançaria mais um editorial em 1844, a revista "A Lanterna Mágica", no mesmo ano em que os ingleses lançaram a lendária publicação "Punch" que nos anos seguintes influenciariam todas as publicações nacionais, inclusive a revista de Manuel de Araújo. Parecia que o humor recém nascido no Brasil já estaria fadado a submissão editorial estrangeira, pois os meios de produção editorial do Sul e Sudeste tinham limitações quanto a tecnologia de produção. (MUSECON,2008). 


 

 O Brasil já desfrutava de uma imprensa "livre", porém sem investimentos e incentivos por parte do império, então como era de esperar, os primeiros editores, eram também os primeiros empreendedores nesse tipo de imprensa, essa arte se tornava cada vez mais popular, pois ao ver as ilustrações de humor satirizando as personalidades sempre bem retratadas, seria possível perceber seu grande potencial comunicador ainda em meados do século XIX.  

   Esses editores tinham o papel de fazer circular as idéias e as informações nas diversas cidades das províncias Sul e Sudeste. Ilustravam satirizando uma história política de uma maneira lúdica e carregada de informação, pois a arte do cartum era uma forma inovadora na comunicação em massa, mostrando-se como uma espécie de precursor da televisão, uma das muitas mudanças que ocorreram com o avanço da industrialização européia do século XIX.  

   Com o tempo essa nova forma de entretenimento ganhava adeptos de todos os tipos e idades, de crianças até idosos, os folhetins se tornavam uma forma de diversão nas páginas dos exemplares.Junto com os cartuns e ilustrações, os almanaques do final do século XIX e início do século XX traziam em seus exemplares diversas maneiras de conquistar os seus consumidores, usavam as propagandas de produtos importados, quase sempre inacessíveis aos leitores que estavam atrás das ilustrações de humor, sempre satirizando alguma personalidade local.             

   O editorial A Lanterna Mágica de 1844, fazia uma severa crítica ao sistema regencial, e a centralização política imposta pelo Estado Monárquico no Rio de Janeiro,  e no mesmo ano a novidade dos folhetins já tinha se espalhado por vários centros urbanos, mostrando de forma lúdica todas as maledicências sociais funcionando como um noticiário delator, era uma vitrine do que era realmente importante na sociedade em transformação fazendo da crítica política mostrada nos traços dos artistas e editores um enorme sucesso popular. Um exemplar que saía das mãos de um dos poucos assinantes rapidamente circulava por anos por todas as mãos pelas vizinhanças.  

A Lanterna Mágica, circulou pela primeira vez no dia 7 de agosto de 1844 , saindo aos domingos e teve 11 edições. Foi preciso esperar a segunda metade do século XIX para que surgisse na imprensa brasileira um periódico satírico e ilustrado com publicação regular.  

   A Semana Ilustrada apresentava, pela primeira vez ao público ansioso por imagens originais, o retrato fiel de muitas das figuras de maior destaque no império, ainda que muitas vezes ridicularizadas em suas ações. A Semana Ilustrada trazia como mote a frase latina, Ridendo castigat mores (rindo se castigam os costumes), era o que o talentoso ilustrador Henrique Fleiuss fazia, aproveitando-se dos problemas e da situação que estava o país governado por D. Pedro II, Fleiuss era bastante ameno com os seus ministros, ainda que a crueldade da sua sátira visual pareça amena para os padrões atuais. A revista teve também, entre seus colaboradores alguns dos maiores escritores da sua época, Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Joaquim Manoel de Macedo.   


 

Angelo Agostini foi o maior editor, ilustrador e cartunista de seu tempo, ele era filho de uma famosa cantora lírica que estava em turnê por São Paulo e que na época era uma capital cultural, onde os maiores espetáculos aconteciam, isso foi um grande incentivo para o início editorial do jovem artista. Ao lado do romancista aclamado Luís Gama lançou em 1864 o primeiro jornal ilustrado publicado em São Paulo chamado O Diabo Roxo, que fez tanto sucesso que lhes renderam outras publicações em periódicos como, CABRIÃO, que criticava constantemente as leis escravagistas, o império, e o clero. Agostini também foi pioneiro a publicar uma história em quadrinho brasileira, As aventuras de Nhô-quim, com o subtítulo de Impressões de uma viagem à Corte, se tratava da história de um camponês no Rio de Janeiro, foi lançada o dia 30 de janeiro de 1869, e em comemoração à esta data é comemorado o dia do quadrinho nacional. 

Em 1876, fundou a Revista Ilustrada, onde ficou reconhecido como humorista satirizando em uma série de caricaturas satirizando as obras apresentadas no Salão de Belas Artes, entre elas as telas Batalha dos Guararapes, de Victor Meirelles, e a Batalha do Avaí, de Pedro Américo. 

   Agostini sempre foi engajado na luta pela abolição da escravatura. Sua revista publicou uma série de caricaturas intituladas Cenas da Escravidão, que continha uma forte referência à Paixão de Cristo, a série era composta de 14 lâminas que denunciavam as torturas a que os escravos eram impostos. 

   O autor produziu diversos impressos, revistas, jornais e produziu para a famosa revista Tico-Tico seu letreiro, com as figuras dos anjos em destaque, mostrando o seguimento sequencial dos seus quadros. A revista contou com participação de Agostini que preferiu desenhar para o público infantil, onde ele encontrava uma razão nova para sua arte, já no início do século XX, perto de seu falecimento, em 1910. Já no Rio Grande do Sul, quase que simultaneamente, houve uma explosão editorial, os almanaques ilustrados invadiram os pontos de venda e mostravam um pouco de tudo. Neste contexto os editores e ilustradores do sul, se destacaram pela produção do primeiro jornal caricato da cidade de Rio Grande-RS, O Amolador, criado em abril de 1874 por Gaspar Alves Meira que propunha simplesmente satirizar os políticos e personalidades que ao seu julgamento fossem merecedoras, centrando-se nas críticas aos costumes e problemas urbanos, representando um agente social. O Amolador encerrou sua circulação em um breve período, pouco mais de um ano, foi fechado em 25 de dezembro de 1875.         Outros almanaques, que não eram necessariamente de humor usavam as ilustrações como atrativo gráfico dando deu importância aos artistas dentro do meio editorial que era repleto de editores políticos não críticos aos movimentos sociais. Os jornais de humor nesse momento se tornam a principal voz crítica na sociedade do Rio Grande do Sul, e esse movimento abriu espaço para que surgisse um dos mais importantes editorias caricatos, que circulou na cidade de Pelotas e em Rio Grande - O Mauri, abertamente simpatizante do partido liberal, inaugurando mais uma façanha dos editoriais o Brasil, o forte senso formador de opinião.O Diabrete era um jornal com uma circulação limitada, o que deu a chance para que o jornal mais popular pudesse preencher os espaços no já muito lucrativo mercado de humor editorial. O jornal foi um semanário fundado por Luís Francisco Cavalcanti de Albuquerque, na cidade de Porto Alegre e era de cunho liberal e político. Como evidenciam suas caricaturas e charges que sempre polemizaram entre as classes da elite política; militar dos Porto Alegrenses, seu principal redator era o jornalista e escritor Ignácio de Vasconcellos Ferreira. O periódico teve duas fases nas suas publicações: a primeira ocorreu de 12 de julho de 1863 à 1864 e sua segunda fase de 28 de julho à 6 de outubro de 1874.  

   A tradição de editoriais ilustrados perdurou nas páginas de vários jornais entre 1871 e 1905. Logo após a guerra do Paraguai, em 09 de março de 1871 na capital da Inglaterra, foi lançado o periódico ilustrado quinzenal - O Echo Americano, que publicava em português matérias de interesse dos brasileiros. As ilustrações tinham como temas os motivos agrícolas e do comercio e ganhou a simpatia da elite brasileira quando em seu primeiro exemplar foi publicado uma longa matéria enaltecendo o compositor baiano Carlos Gomes. No Sul do país as prensas não paravam e os periódicos seguiam os modelos de sucesso das edições européias, influenciados pela imigração alemã e italiana das camadas mais simples às mais abastadas e cultas. Surgiram neste contexto jornais ilustrados que inovaram na sua forma de comunicar. Durante os primeiros anos da república, Porto Alegre, foi um dos lugares onde houve mais folhetins humorísticos, os empreendedores da imprensa já exerciam um certo poder na sociedade rio grandense. Editores como Astro Perdigão e Gregório Nero, lançaram O Pau que Bate e fizeram um grande sucesso com as classes mais populares, onde mais era necessário que a notícia chegasse.  (MUSECOM, 2008)       O cartum e sua forma inovadora buscava reportar os fatos importantes como o final da escravatura e o final do regime monárquico. 

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