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O Traço que Ensina: Quando a Vida Pede Passagem Fora das Salas de Aulas.

18 de jun.
5 min de leitura
Artista em atuação no Ateliê.  2025
Artista em atuação no Ateliê. 2025

​Sabe aquela ideia de que o aprendizado só acontece quando a sineta toca e alguém fecha a porta da sala de aula? Pois é. Esquece. Se tem uma coisa que a arte me ensinou — e olha que ela me ensinou quase tudo — é que o conhecimento mais profundo costuma gostar de ar puro. Ele acontece no chão de fábrica da criação, na troca de olhares, no erro que vira acerto na folha de papel.

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Digo isso por experiência própria, de quem viveu a peleja na pele. Entre os anos de 1993 e 1995, quando eu tinha ali meus 15 a 18 anos — aquela fase em que a gente está tentando entender o próprio lugar no mundo —, minha verdadeira escola foi o Espaço Cultural Renato Russo. Quem conheceu aquele ambiente naquela época sabe do que estou falando: um lugar que fervilhava arte, liberdade e experimentação.

​Foi ali que a minha história começou a ganhar contornos definitivos através do traço, do universo da ilustração e da comunicação gráfica. E se eu entendi o que significa ser um artista, foi porque tive a sorte de cruzar com o mestre Marel. O professor Marel não era o tipo de educador que te prendia a regras engessadas; ele trazia o mundo para dentro do desenho. Com ele, aprendi que ilustrar não era apenas dominar a técnica, mas aprender a comunicar, a expressar uma ideia que cutuca quem está olhando.


​Ali, no calor da oficina, vendo o mestre atuar e errando junto na folha, entendi o valor do processo. Esse aprendizado orgânico me abriu portas para caminhos fascinantes: me tornei restaurador através do uso da aquarela — lidando com o tempo, a paciência e a memória — e, mais tarde, busquei a licenciatura em História. Afinal, a cabeça já estava moldada para olhar o mundo com criticidade.


​Foi um salto natural da calmaria do restauro para a crônica visual do cartoon. Unindo a bagagem histórica, o olhar das ciências sociais e a base de comunicação que o Marel me deu na adolescência, passei a usar as ilustrações como memórias gráficas do tempo presente. Uma ironia visual que capta a realidade muito mais rápido que um textão.

espaco cultural.  Luigi Lopes Pedone.  2007 produção autoral cartum show.
espaco cultural. Luigi Lopes Pedone. 2007 produção autoral cartum show.

​Mas a minha relação com o espaço cultural não parou na juventude, e nem ficou restrita ao papel de professor. Existe uma dimensão que muitas vezes passa invisível, mas que é o coração do desenvolvimento de qualquer artista: a importância do instrumento público como suporte real para o fazer artístico. Durante mais de dez anos, o Espaço Cultural Renato Russo foi o meu verdadeiro escritório.


​Não estou falando apenas de um teto, mas de um ecossistema de acolhimento. Era a estrutura física dos ateliês, o acesso à internet para pesquisar e enviar trabalhos, as tardes inteiras debruçado sobre a prancheta fazendo cartoon e o convívio diário, quase familiar, com os funcionários do local. Foi dentro dessa engrenagem pública que nasceram todas as edições da revista Cartoon Show, que desenhei, produzi e editei.


​Essa estrutura me permitiu acessar o universo que girava em torno do espaço: o apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), a conexão com empresários locais que acreditavam no projeto e a parceria com quem valorizava a arte relevante. Essa vivência, que atravessou os anos de 2005 até 2021, culminou na criação da série Brasília Ilustrada. Ali, usei o humor e a ludicidade para registrar graficamente as transformações de uma capital que sofreu muito nos últimos dez anos. Foi a história da cidade sendo contada através do traço, amadurecida dentro de um patrimônio público de cultura. Sem esse suporte do Estado, a memória visual da cidade teria ficado mais pobre.


  • ​Subvertendo o vício da tela

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Essa vivência me deu estofo para que, anos depois (entre 2021 e 2023), eu pudesse assumir as oficinas de ilustração editorial com uma bagagem muito mais pé no chão. Ali percebi o tamanho do desafio geracional: os alunos — mesmo os ditos "típicos" — chegavam ao ateliê com um vício profundo. Eles não desenhavam; eles copiavam o que estava na tela do celular. O algoritmo entregava a imagem pronta e eles apenas reproduziam mecanicamente, travados na hora de criar algo genuíno.


​Foi aí que a pedagogia da vivência e do espaço público falou mais alto. Em vez de proibir o celular, eu mudei a função dele no ateliê. Transformei o aparelho em uma espécie de "redação de jornal". O celular não servia mais para decalcar a imagem de outro artista, mas para pesquisar a notícia, o contexto social, a contradição da realidade. Ele virou ferramenta de apuração.


​A mágica aconteceu quando eles guardavam o aparelho e precisavam traduzir aquela informação no papel, usando o próprio repertório. A transformação foi brutal: os jovens deixaram de ser meros copiadores de pixels e passaram a se enxergar como autores de suas próprias narrativas visuais.


  • ​O papel que aceita todo mundo


​Essa força revolucionária do desenho e do cartoon é essencialmente democrática porque, diante de uma folha em branco, as barreiras invisíveis da rigidez escolar começam a ruir:


​Para o aluno dito "típico": É o estalo de lucidez. É a chance de usar a história e as ciências sociais não para decorar datas, mas para criticar o mundo e colocar sua própria opinião no papel.

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Para o aluno "atípico": Aqui o traço vira cura e linguagem. Onde a comunicação verbal encontra barreiras, o desenho flui. A caricatura acolhe a singularidade porque ela mesma é a arte do "fora do padrão". No cartoon, o que a sociedade chama de "estranho" vira estilo; o que é "fora da norma" vira genialidade. A folha de papel acolhe todo mundo sem.

​O impacto que redesenha o futuro


​Essa evolução se dá no nível mais humano possível, cruzando gerações. O mesmo ' que senti lá atrás, na adolescência com o mestre Marel, e depois na maturidade criando a Cartum Show nos corredores públicos, é o que tento plantar hoje na vida de quem passa pelos meus projetos. É um processo contínuo de transmissão onde o grafite no papel serve de pretexto para o amadurecimento social e afetivo. A arte humaniza o aprendizado porque lida com o erro não como um fracasso punível com nota baixa, mas como o rascunho necessário para a descoberta de uma nova rota. É um exercício diário de paciência, escuta e expressão.


​Seja tensionando as paredes rígidas da escola formal, ocupando os ateliês públicos ou movimentando projetos sociais que dão vida às nossas cidades, o aprendizado pela arte visual é, essencialmente, um pacto de liberdade. Mostra que o conhecimento verdadeiro não é aquele que te molda para caber em uma fôrma, mas o que te dá as ferramentas para desenhar o seu próprio caminho. Afinal, a história continua sendo escrita todos os dias — e a gente sempre pode escolher segurar o lápis.


​E você, que acompanhou essa nossa conversa até aqui... qual foi a última vez que permitiu que um traço mudasse a sua forma de ver o mundo e redesenhasse quem você é?

 
 
 

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